Pronampe ou home equity: a carência inverte a conta
Todo dono de micro ou pequena empresa que precisa de capital ouve a mesma recomendação: pegue Pronampe. É crédito do governo, taxa subsidiada, garantia de fundo público. Difícil discordar.
E de fato o Pronampe é bom. Só que a comparação que quase ninguém faz — Pronampe contra home equity, para o mesmo empresário — tem um resultado que contraria a intuição. Vamos aos números.
O que cada um oferece hoje
| Pronampe | Home equity | |
|---|---|---|
| Taxa | Selic + 6% a.a. = 20,00% a.a. | 1,15% a.m. + IPCA ≈ 19,80% a.a. |
| Tipo de taxa | Pós-fixada (segue a Selic) | Juros reais + índice |
| Teto | R$ 500 mil, ou 50% do faturamento | Até 60% do valor do imóvel |
| Prazo | até 96 meses | até 240 meses |
| Carência | até 24 meses | raramente oferecida |
| Garantia | FGO + aval dos sócios | um imóvel específico |
| Tarifas e seguros | não há | cartório, avaliação |
| IOF | 0,95% + 0,0082%/dia (PJ) | 0,38% + 0,0082%/dia (PF) |
| Elegibilidade | faturamento até R$ 4,8 mi | ter imóvel quitado |
Repare que as taxas nominais são praticamente iguais: 20,00% contra 19,80% ao ano. Quem parar aqui vai escolher o Pronampe — ele não tem tarifa, não tem cartório, não tem avaliação. Parece decidido.
O número que muda tudo
Cenário: R$ 300 mil, 96 meses. Um empresário com faturamento de R$ 1,2 milhão (teto de R$ 500 mil, então o valor cabe) e um imóvel de R$ 500 mil quitado.
| Pronampe (24m de carência) | Home equity | |
|---|---|---|
| Parcela | R$ 9.944 (após a carência) | R$ 6.599 (primeira) |
| Total pago | R$ 715.959 | R$ 548.363 |
| Custo do crédito | R$ 431.739 | R$ 264.659 |
| CET | 21,5% a.a. | 22,2% a.a. |
O Pronampe tem o CET menor e o custo total maior. Em R$ 167 mil.
Isso não é erro de conta, e é o ponto central deste artigo.
CET é uma taxa; custo total é um valor. A carência não muda a taxa — muda o tempo durante o qual a dívida existe. Você fica devendo por mais tempo, então paga mais no total, mesmo com uma taxa igual ou menor.
A carência não é um benefício, é um empréstimo dentro do empréstimo
O marketing do Novo Pronampe 2026 destaca a carência dobrada: de 12 para 24 meses. Soa como alívio de caixa, e é. Mas veja o que acontece nesses 24 meses:
Você não paga nada. Os juros, porém, continuam correndo — e são incorporados ao saldo devedor. A 20% ao ano, sua dívida de R$ 300 mil vira R$ 432 mil antes de a primeira parcela vencer. Cresceu 44% sem que um centavo saísse do seu caixa.
Depois disso, você amortiza R$ 432 mil em 72 meses em vez de R$ 300 mil em 96.
A carência é dinheiro emprestado a você para pagar os juros do dinheiro que já te emprestaram. É legítimo e às vezes necessário. Só não é grátis, e o custo raramente é apresentado.
O que fazer a respeito
Existe uma saída que quase nunca é oferecida por padrão: pagar apenas os juros durante a carência. Você não amortiza — o caixa da empresa segue protegido do peso da amortização — mas impede que a dívida cresça. No mesmo cenário, isso economiza cerca de R$ 109 mil no total pago.
Peça explicitamente. Muitos bancos operam essa modalidade e simplesmente não a colocam na tela inicial da proposta.
O risco que não aparece na taxa
Há uma segunda diferença estrutural, e ela não é financeira.
O Pronampe é pós-fixado. O contrato não trava a Selic: se o Copom subir os juros, sua parcela sobe junto, até o fim dos 96 meses. Num teste de estresse com a Selic 4 pontos acima, o total pago vai de R$ 716 mil para R$ 829 mil. Você não tem como se proteger disso — não existe Pronampe prefixado.
O home equity indexado ao IPCA tem risco análogo, mas de outra natureza: inflação, não política monetária. E existe home equity prefixado, ainda que raro.
O FGO não protege você
Esse é o mal-entendido mais comum sobre o Pronampe.
O Fundo Garantidor de Operações cobre o banco em até 85% da carteira. É por isso que a taxa é baixa: o risco do credor caiu. Mas se a sua empresa não pagar, o FGO honra o banco e passa a cobrar de você. A dívida não desaparece — muda de credor.
Some a isso o fato de que os sócios normalmente assinam aval, o que já expõe o patrimônio pessoal. Na prática, a diferença de exposição patrimonial entre Pronampe e home equity é menor do que parece:
- Home equity: um imóvel específico e identificado responde pela dívida. Você sabe exatamente o que está em jogo.
- Pronampe com aval: o patrimônio pessoal dos sócios responde de forma difusa, sem limite definido a um bem.
Não é óbvio qual dos dois é mais arriscado. É óbvio que quase ninguém apresenta a comparação nesses termos.
Quando cada um ganha
Pronampe faz mais sentido quando:
- o valor está dentro do teto e você não tem imóvel para dar em garantia;
- você precisa do dinheiro rápido — não há laudo nem registro em cartório;
- você consegue negociar carência curta ou pagamento de juros durante ela;
- a operação é pequena, onde os custos fixos do home equity pesariam muito.
Home equity faz mais sentido quando:
- você precisa de mais do que o teto permite — e esse é o caso mais frequente, porque 50% do faturamento é pouco para quem quer investir em expansão;
- o prazo precisa passar de 96 meses;
- você quer travar a taxa e fugir do risco Selic;
- você tem imóvel quitado e prefere um risco delimitado a um aval aberto.
E existe a terceira opção que ninguém sugere: usar os dois. Pegar o Pronampe até o teto, que é o dinheiro mais barato disponível, e complementar com home equity apenas o que faltar. Numa necessidade de R$ 300 mil com teto de R$ 200 mil, isso significa R$ 200 mil na linha subsidiada e R$ 100 mil na garantida — mais barato que qualquer um dos dois isolados.
O checklist antes de assinar o Pronampe
- Qual é a carência e o que acontece com os juros nela? Se forem capitalizados, peça a simulação com e sem.
- Posso pagar só os juros durante a carência? Quase sempre pode. Quase nunca é oferecido.
- Qual é o CET? O Pronampe não tem tarifa, mas tem IOF de PJ, que é maior que o de pessoa física.
- Quem assina o aval e em que extensão?
- Qual é o meu teto real? 50% do faturamento bruto, limitado a R$ 500 mil por CNPJ.
- Cabe no meu caixa quando a carência acabar? A parcela pós-carência é bem maior que a que caberia sem ela.
A calculadora roda Pronampe e home equity lado a lado, mostra quanto a dívida cresce durante a carência e faz o teste de estresse da Selic. Se você tem empresa e imóvel, vale rodar antes da próxima conversa com o gerente.
Este conteúdo é informativo e educacional. Não constitui recomendação de contratação de crédito, consultoria financeira ou oferta de produto. Condições reais dependem da instituição, do seu perfil de crédito e da análise do imóvel.